Consultório 9
Vivências de uma ginecologista e obstetra
Consultório 9 é um livro escrito com toda a delicadeza necessária aos temas tratados e ao ambiente que serve de cenário às crônicas que o compõem.
Como o próprio título sugere, a autora, Janette Campos, é uma ginecologista e obstetra que, por um bom período, atendeu no Consultório 9 de um centro de saúde da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. Das vivências com as pacientes, brotou a inspiração para escrever crônicas a partir de fragmentos dos seus atendimentos.
Chama a atenção o cuidado que a autora teve ao preservar o anonimato das pacientes. Aqui, as personagens não recebem nomes, mas são designadas por alcunhas, como ‘a octogenária’ ou ‘a adolescente de catorze anos’. A exceção fica por conta de Iolanda, uma simpática enfermeira que, ao se aposentar, foi homenageada com uma das salas do centro de saúde, que passou a levar o seu nome, em reconhecimento ao seu profissionalismo e companheirismo junto aos colegas.
Ao longo da obra, acompanhamos a Dra. Janette pelas histórias dos seus diversos atendimentos e descobrimos muito mais do que uma sequência de protocolos médicos padronizados. Descobrimos que o consultório da ginecologista, muitas vezes, torna-se confessionário, onde as mulheres revelam os segredos mais íntimos, desabafam suas angústias ou são protagonistas de situações tanto hilárias quanto constrangedoras.
Pelas narrativas curtas e diretas, acompanhamos pacientes de vários matizes sociais e com questões que são pertinentes às mulheres das mais diversas origens e vivências. A universalidade dos temas faz com que a obra vá além do mero entretenimento e provoque reflexão e conscientização ao leitor mais atento.
Há histórias bem-humoradas, que nos arrancam risadas, como a descrita em “Namoro aos Oitenta”; outras, como “Resenha”, nos levam à reflexão sobre o machismo que oprime, disfarçado por um verniz de felicidade; ou ainda situações de abuso, gravidez na adolescência, demência, envelhecimento, insatisfações, entre outras.
O texto “Amante”, que, como o título já entrega, traz um caso de infidelidade conjugal, é encerrado com um alerta aos leitores: “... essa história pode amedrontar algumas pessoas casadas...”. Embora a obra não faça tal referência, essa advertência remeteu-me ao filme As Pontes de Madison, estrelado por Clint Eastwood e Meryl Streep, que vivem um romance tão improvável quanto possível. Um filme lindíssimo, para o qual costumo fazer o mesmo alerta quando indico a alguém.
Perceber o cuidado da médica e o seu interesse pela história de cada paciente traz um alento. Seu carinho com a paciente centenária, que chega acompanhada por uma das cuidadoras do lar de idosos; sua paciência e cuidado na condução dos exames da adolescente receosa de se despir; o abraço na paciente que compartilha a sua dor de mãe: tudo isso são demonstrações de humanidade, muito presentes ao longo dos textos e que convidam o leitor a sentir na pele um pouco das situações vividas.
“Sem palavras, eu apenas a fitava, sensibilizada. (...)
Abracei a paciente, agradecida por ter compartilhado sua história. Quem tem filhos entende sua dor.”
(Choro de útero, pag. 47)
No texto “Lua Cheia”, a autora revela uma narrativa com maior força literária, com relatos de situações externas ao consultório, bem como um pouco dos detalhes técnicos do seu ofício, porém de forma sucinta, cuidando para não cansar o leitor. É nesta crônica que a narradora se desnuda, ao reconhecer a sua impotência por não conseguir estar sempre presente, ainda que queira.
Um dos pontos mais sensíveis da obra está na crônica “Cutting”, que traz um tema bastante delicado e que serve de alerta às mães e pais quanto à percepção do estado emocional das filhas adolescentes. O texto impacta já pelo início:
“Aos dezesseis anos, chega para a primeira consulta de pré-natal comigo, já com 25 semanas de gestação. Pediu para trocar de médico porque o outro “não explicava nada”. O prontuário continha anotações da assistente social. Queria a emancipação porque a mãe “não ligava pra ela”. Não sabia o paradeiro do pai.”
(Cutting, pag. 81)
É um livro composto de crônicas curtas. Considero que algumas, como “Gravidez Planejada”, até poderiam ter se aprofundado um pouco mais no tema proposto. No entanto, entre textos leves e outros mais densos, a sequência das crônicas foi organizada de modo que a leitura não se torne enfadonha. Há textos que nos pedem uma pausa, seja pela emoção que despertam, seja pelas reflexões que provocam. Não é um livro para se ler num fôlego só.
Que cada leitor possa se divertir e se emocionar ao olhar pelas frestas do Consultório 9 e acompanhar um pouco da rotina da doutora cronista.
Título da Obra: Consultório 9 – Vivências de uma ginecologista e obstetra
Autora: Janette Rodrigues Campos
Editora Literíssima, 2026
ISBN: 978-65-5079-690-7
Nº de páginas: 144
Foto do livro para a resenha: Jefferson Lima