Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

Para Todas as Idades

 

 

“Já não se vê pipas coloridas pelo ar,

trazendo a esperança que as crianças voltaram do espaço,

que as crianças voltaram a brincar.

Já não se lê lindas poesias nos jornais,

trazendo a esperança que os poetas voltaram do exílio,

que os poetas voltaram a sonhar.”

 (Janires)

Hoje me peguei cantarolando essa linda canção de Janires, composta em 1987 e gravada no primeiro álbum da Banda Azul — e que seria sua última gravação, pois o compositor faleceu antes que o LP fosse lançado. Era uma época em que a música cristã no Brasil ainda conservava linhas poéticas da melhor qualidade.

Lembrar de Coração Azul — esse é o título da canção — me proporcionou uma viagem saborosa aos tempos de infância. Já contei aqui, em uma das crônicas passadas, sobre o meu Ferrorama XP 400, que era um brinquedo já bastante tecnológico para a época. Hoje, porém, minhas memórias foram para os momentos mais lúdicos e puros da criança que fui.

Cresci como um menino solto, brincando na rua com todo tipo de brinquedos e jogos. O preferido era o arco: uma rodinha metálica empurrada por um ferrinho em formato de gancho. Eu era considerado o mais habilidoso na arte de “rodar arco” pelas ruas do bairro Satélite, em João Monlevade. O brinquedo era meu fiel companheiro para ir buscar pão ou para atender a qualquer demanda de minha mãe. Era mais comum me ver conduzindo a rodinha barulhenta pelas ruas do bairro, que pedalando minha Monareta de cor “bonina” — sim, esse nome de cor – “bonina” – ainda era conhecido nos anos 80.

E como não lembrar da brincadeira de “finca”? Cada menino portava um pedaço de ferro bem afiado ou até mesmo uma faca pontiaguda, surrupiada da cozinha da mãe, para fincar no chão úmido após as chuvas, riscando linhas em disputas cheias de estratégia, gritaria e confusão. Naquele tempo, nenhum de nós cogitava usar aquele objeto perigoso para resolver desavenças. Éramos inocentes, e temíamos a repreensão, seja dos próprios pais ou dos vizinhos. Na comunidade, todos se sentiam no direito de corrigir os filhos uns dos outros — e isso não era um problema.

Brincávamos ainda de “controle” ou “três toques”: um futebol improvisado com dois na linha e um no gol — geralmente o portão de algum vizinho. Nos primeiros minutos, não se importavam, mas depois, cansados dos gritos e das boladas no portão, reclamavam, e íamos, então, incomodar outro.

Entre bola, arco, rouba-bandeira, queimada, polícia e ladrão, bolinhas de gude, pique-esconde, carrinhos de rolimã e tantas outras brincadeiras, havia algo que me encantava especialmente: as férias de julho e os fins de semana de agosto, quando o vento trazia de volta as pipas, que então chamávamos de papagaios — nome que, confesso, prefiro.

Ainda vivi os dias em que não se usava cerol. Gostava de confeccionar papagaios grandes e coloridos, empinando-os com centenas de metros de “Linha 10”, enrolada cuidadosamente em uma manivela de madeira. Foi assim durante toda a infância, até que, já no início da adolescência, surgiram as primeiras linhas adulteradas com cola e vidro moído, feitas para cortar as linhas dos outros papagaios. A partir daí, a disputa se instalou. Como eu gostava era de ver o meu papagaio apenas colorindo o céu, encerrei meu ciclo com essa brincadeira. E, quase sem perceber, também minha infância começava a se despedir: os interesses mudavam e as brincadeiras ficavam para trás. Mas eu não deixei de brincar.

Foi nesse período que mergulhei nas aulas de música, onde aprendi teoria musical e pratiquei clarinete e saxofone — este último se tornaria meu instrumento da vida. Já brincante da leitura, comecei também a escrever poemas, em que derramava paixões, sonhos e desilusões adolescentes, quase sempre rasgados logo em seguida.

Tocar sax e escrever se tornaram meus brinquedos favoritos. O sax me acompanharia por décadas de intensa atividade musical; hoje, com as demandas cotidianas, ficou como passatempo esporádico. Já a escrita continua sendo o espaço onde a criança se une ao adolescente para bagunçar as ideias do homem adulto e produzir algo prazeroso.

Também não posso esquecer a fase das tintas e pincéis. Volto a essa diversão de vez em quando, e ela me traz uma imensa alegria. Brincando com cores e texturas, entre o cheiro da tinta e a escolha do melhor pincel, o tempo escorre sem que eu perceba.

 

A canção de Janires, com a qual iniciei este texto, tem uma segunda parte, na qual ele se lamenta e tenta justificar a ausência das pipas coloridas e da poesia nos tempos atuais:

“Também, de que adianta pipas coloridas pelo ar,

se as pessoas não querem mais ver?

Também, de que adianta lindas poesias nos jornais,

se as pessoas não querem mais ler?”

Sou tentado a concordar com o poeta. Hoje, às vezes, acham graça quando deixo vir à tona meu lado mais lúdico, sonhador ou de menino travesso que gosta de gargalhar e não perde a chance de uma boa bagunça.

Veio-me à memória um sarau, em tempos de pandemia, realizado numa quinta-feira à noite em frente à igrejinha da Pampulha, em BH. Ainda era período de distanciamento, mas, já vacinados com a primeira dose, nos arriscamos num encontro ao ar livre. Ilma Pereira, querida amiga e “fofoqueira literária” deste blog, junto a duas colegas poetas, embarcaram na minha sugestão pós-sarau: “vamos brincar no Minhocão do Parque Guanabara!” Naquele instante, fomos crianças outra vez, rindo alto e nos divertindo, como se as preocupações daqueles dias tivessem se reduzido a nada.

E aqui evoco a poesia de Fernando Brant e Milton Nascimento, Bola de Meia, Bola de Gude, que o nosso querido Bituca tão lindamente cantou:

Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

(...)

E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade, alegria e amor
Pois não posso, não devo, não quero
Viver como toda essa gente insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal

Bola de meia, bola de gude
O solitário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão

(...)

Finalmente, lembro-me das palavras de Jesus, que afirmou que o Reino dos Céus pertence a quem tiver em si a pureza das crianças (Mateus 18:3 e 19:14). Algo quase impossível, mas que devemos buscar em algum cantinho interior, onde a nossa criança se esconde — e trazê-la a brincar.

Um feliz Dia das Crianças para a molecada de todas as idades! Brinquemos!

* Imagem: Brincando de Aro, de Ivan Cruz (artistasdobrasil.com)

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 12/10/2026
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