Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

Onze de Outubro

Final de sexta-feira.

Daqui a exatamente uma hora e oito minutos, este dia dará lugar a outro no calendário. Foi um dia de muito trabalho e relativamente feliz, principalmente porque, ao chegar em casa, encontrei minha esposa e filha felizes e um ambiente acolhedor.

Mesmo assim, não deixou de ser um onze de outubro.

É impossível não voltar a dezoito anos atrás. Outro onze de outubro. O dia em que senti na alma o início de uma profunda dor. Dor esta que deixou cicatrizes e um certo incômodo que, desde então, me acompanha.

Naquele dia onze de outubro, nascia Melissa Evelyn, nossa primeira filha – sonhada, desejada, esperada, com todas as expectativas que um casal poderia depositar numa primeira gestação. No entanto, a pequenina Mel chegou bem antes da hora e passou apenas para uma visitinha rápida de 14 dias em nossas vidas.

Encantou-se.

Seguiu-se um período de reclusão, transpiração e inspiração. Muitos versos gestados numa bolsa de lágrimas, que agora voltam a umedecer meus olhos, enquanto o peito queima com a mesma dor.

Naqueles dias, não era possível sequer sonhar com a chegada de Yasmin Louise, que nos devolveria o sorriso um ano e quatro meses depois. Seguiram-se semanas de incontáveis dias, onde a única coisa a fazer era nos agarrarmos à fé e confiar que o sol voltaria a brilhar em algum momento — não sabíamos quando seria, mas era necessário atravessar as sombras.

Foi um momento de ressignificação da fé, descartando qualquer possibilidade de aceitação como sendo "a vontade de Deus". Não acredito num ser que possa ter vontade de matar inocentes e usar de meios cruéis para ensinar aos seus "filhos" uma lição, qualquer que seja. E não aceito qualquer tentativa de me provar o contrário através de textos bíblicos, uma vez que tais textos foram escritos por seres humanos passionais, contraditórios e sujeitos a muitos equívocos.

A minha fé se renovou num Deus amoroso, que acolhe, pega no colo, afaga e segura pela mão enquanto atravessamos os vales sombrios. Um Deus que nos coloca sobre os ombros para que possamos, ao menos, tentar olhar através das montanhas que, por ora, parecem intransponíveis. Um Deus que fortalece, consola, mas não nos poupa de vivenciar as dores do existir.

Neste exato momento, ouço "You Raise Me Up", de Josh Groban, na voz das irlandesas do Celtic Woman. Esta canção diz exatamente da fé ressignificada que encontrei e que me deu forças para suportar aqueles dias cinzentos...

 

When I am down and all my soul so weary

When troubles come and my heart burdened be

Then, I am still waiting in the silence

Until you come and sit a while with me.

 

You raise me up so I can stand on mountains

You raise me up to walk on stormy seas

I am strong when I am on your shoulders

You raise me up to more than I can be.

 

Mergulhado nesse misto de dor e gratidão, invoco as palavras que São Paulo disse em uma de suas epístolas: "As coisas que jamais foram vistas, nem ouvidas, e nem sequer imaginadas, foram as que Deus preparou para os que o amam".

A partir da chegada da pequena Yasmin, retomamos a alegria e tudo se renovou. O sentido de família foi atualizado e fortalecido. Todo aquele mar de rosas sonhado nos tempos de namoro e na celebração das bodas se transformou em cumplicidade, companheirismo e admiração, que se tornaram quase palpáveis, tamanha a força desses sentimentos.

Cicatrizes existem. Contudo, ainda que o onze de outubro continue trazendo as lembranças de uma saudade cortante, há motivos para ser feliz e acreditar que toda dor é "por enquanto", como lindamente cantou o mineiro Marcos Almeida, numa canção cheia de esperança.

Acho que nasci para ser pai. E gosto de ser o amigo-pai, ou pai-amigo, sei lá o que vem primeiro! Ora sou o chato, que educa, corrige e estabelece os limites; ora sou o que gosta da bagunça, de sair para tomar sorvete, bater papo, falar bobagem, ouvir histórias e historietas, contar mentiras e ver o sorriso nos lábios. Isso me faz transbordar de felicidade!

Enfim, sou grato pelo destino que me coube nesta vida. Estar rodeado por mulheres desde a infância, pois ser criado por minha mãe e mais três ‘irmães’ me deu a capacidade de entender um pouco deste complexo universo. Encontrar um grande amor e, juntos, buscar a força para nos recuperarmos de uma perda me levou a um crescimento imensurável como ser humano.

Finalmente, ser pai de uma garota incrível me conduz a um novo olhar sobre os mistérios da alma feminina, a partir de uma perspectiva inédita e desafiadora.

O onze de outubro nunca deixará de ser a data que é sempre representará um dia de saudade para a nossa família. Porém, é possível ressignificar a existência através de outros dias e outros marcos, dando espaço para a alegria e a celebração, para nunca perder a ternura e o riso largo.

* Escrito no dia 11 de outubro de 2024. Integrou a coletânea Bendita Existência.

* Imagem gerada por IA para este texto.

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 12/10/2026
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