“Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.
(Rubem Alves)
Estou a poucos dias de completar meus primeiros cinquenta anos! Por ser um marco na minha existência, resolvi celebrar com o lançamento de um novo livro: Para Acordar Silêncios e Adormecer Fantasmas.
Chegar aos 50 e celebrar lançando poemas ao universo é motivo de uma alegria tamanha, que me esqueço do fato de que, segundo as estatísticas, a ampulheta do meu tempo já tenha deixado escorrer mais da metade da areia. Porém, costumo mesmo ignorar os gráficos quando me são desfavoráveis, preferindo acreditar que ainda estou a dez anos de ver passar metade da areia disponível. Que a ampulheta encontre uma maneira de fazer essa areia render.
Racionalização otimista à parte, a verdade é que desejo que esta data seja lembrada pelo nascimento deste filho poético. São textos onde exponho os meus eus, minhas facetas, meu jeito de olhar e sentir o mundo. Eles refletem as muitas vozes que ressoam dentro da minha mente — ora pacificada, ora inquieta; às vezes silenciosa, ignorando os ruídos ao redor; e, não poucas vezes, barulhenta, alheia ao silêncio ambiente. Quase sempre solitária; vez ou outra, acompanhada de outras vozes que me deram a felicidade de uma dança poética.
À medida que amadurecemos e adquirimos a capacidade de olhar para o retrovisor das nossas vivências, amplia-se a percepção das pessoas e dos lugares que nos formaram, de modo que passamos a compreender fatos que, até pouco tempo, eram um tanto nebulosos. E, quando vamos além do meramente instintivo e buscamos o autoconhecimento, aí é que tudo se torna muito mais claro — e visceral. Chega a doer!
“O homem chega à sua maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade que uma criança encara uma brincadeira.”
(Friedrich Nietzshe)
Reconheço em mim o desapego do meu pai. Numa época em que o termo “minimalismo” ainda não havia sido disseminado, não sei se por força das circunstâncias ou por modo de pensar — pois nunca tivemos essa conversa — talvez ele já fosse um minimalista. Carrego da minha mãe a energia, tanto para me acabar em altas gargalhadas quanto para entrar numa luta por aquilo que é justo. Acredito que seu pragmatismo esteja impregnado em mim. Já o lado artístico — bem como o pé nas exatas, ancorado na lógica e na praticidade — trago como herança de ambos, que sempre amaram as plantas, a música e valorizaram o hábito da leitura.
Também está grafado nos meus versos o fato de ter sido o caçula de uma família em que já havia quatro filhos antes de mim, que não imaginavam receber mais um chorão, bonito e gordinho, depois de um longo intervalo. Estão aqui as lembranças do meu irmão e o carinho das três irmães que, junto com minha mãe, formaram o quarteto que deu conta da minha criação. Anos depois, fomos presenteados com mais um casal de irmãos, em cujas vidas, de certa forma, impacto, assim como também impactam a minha existência — talvez eles nem imaginem o quanto.
“Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.”
(Gibran Khalil Gibran)
Numa leitura atenta da minha escrita, é impossível ignorar as expressões de fé, o meu posicionamento ideológico e o quanto cada acontecimento me provoca reflexão e reação. A fé está entranhada no meu ser, tanto quanto a visão humanista da existência — não as considero antagônicas. Não sei viver sem crer; porém, não consigo crer aprisionado a uma cartilha reducionista e excludente. Meus princípios — o amor, a justiça social e a busca do bem comum — justificam a minha crença, que se propõe a ser mais prática do que devocional ou, talvez, não devocional no sentido cerimonialista, mas direcionada ao outro. Quanto aos evidentes equívocos e às impossibilidades, conto com a arte para me amparar e redimir.
Por fim, é impossível atingir este marco feliz sem mencionar a mulher que me ressignificou justamente quando eu estava prestes a alcançar a metade deste tempo. O amor — que suplantou todas as paixões que vieram antes — fez proliferar versos que ficaram gravados na alma.
O fruto do nosso amor dá sentido aos meus amanheceres e justifica cada luta que me proponho a enfrentar. Os nascimentos das minhas filhas e a despedida de uma delas trouxeram o lado concreto da poesia. Quando passamos a ter um coração que pulsa fora do corpo, os dias ganham novas cores; e o coração mais duro amolece — por vezes, mais do que gostaríamos. A partir de então, qualquer coisa que tentamos escrever é infinitamente menor do que aquilo que o coração em essência sente.
Ao escrever estas últimas linhas, não crio expectativas quanto a outras que porventura venha a escrever. Posso apenas afirmar que, se vierem outros textos, serão viscerais; frutos do meu espanto, da indignação, da alegria ou do amor pela existência — coisas que nenhuma inteligência, além dos meus fantasmas, alcançará.
“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.”
(Adélia Prado)
* Texto escrito para a coluna A Poética do Olhar do blog Bendita Existência
Imagem: Gerada por IA para esta crônica.