Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

Por Ser Amor...

 

 

“Por ser exato, o amor não cabe em si.
Por ser encantado, o amor revela-se.

Por ser amor, invade e fim.”

(Pétala - Djavan)

 

Não é por acaso que inicio este texto com os lindos versos de Pétala. Hoje é o Dia dos Namorados, e Djavan foi a principal trilha do meu namoro com a encantadora morena que, há mais de vinte anos, completa o sentido dos meus dias.

Não quero me apegar ao fato de que as datas comemorativas são meramente comerciais, criadas para movimentar o comércio e blábláblá...

Minha intenção é dedicar uma ode ao amor, à delícia de ter alguém com quem partilhar e compartilhar os momentos da vida, à certeza de saber que alguém se importa e que, juntos, podemos celebrar as conquistas, chorar as perdas e permanecer em silêncio de amparo e cumplicidade.

 

“Quero fazer contigo

o que a primavera faz com as cerejas.”

(Pablo Neruda)

 

Na simplicidade do poeta que observa a natureza, Neruda descreveu a maior virtude de quem ama: ser fonte de felicidade para o ser amado. Para que a outra pessoa irradie o amor recebido, não precisa haver um dia específico no calendário – há todos os dias, de qualquer estação.

O meu desejo é que meu amor lhe faça tão bem, que ela floresça, espalhe o melhor perfume, transborde o melhor sorriso, levando consigo a ternura de quem se sente amada.

Lembro-me agora de uma parte muito gostosa e, possivelmente, uma das mais bonitas da nossa história. Para repartir essa fatia do nosso amor, vou, sem qualquer modéstia, evocar Álvaro de Campos, pois creio que concordaria comigo:

 

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.”

 

Toda a nossa fase de namoro foi à distância, pois morávamos em cidades diferentes – eu, já em Belo Horizonte e ela, no interior do estado. Separados por pouco mais de cem quilômetros, nos víamos a cada quinze dias. Em raras ocasiões, nos encontrávamos em semanas seguidas, mas também houve vezes em que a saudade se estendeu por até três semanas.

Somos de uma era analógica – quase incompreensível para os nascidos na virada do século. Os aparelhos celulares ainda estavam começando a desbravar o terreno e os aplicativos de mensagens rápidas ainda levariam mais de uma década para surgirem por aqui.

Para suportar as semanas de ausência, eu, que dividia um apartamento com outros seis colegas, aluguei uma Caixa Postal na agência dos Correios da Rua dos Caetés, esquina com Av. Olegário Maciel (mais analógico que isso, impossível!) e trocávamos cartas. Muitas cartas! Às vezes, depois de um domingo juntos, já estávamos enviando cartas na terça-feira...

E em cada carta, poemas... Foi uma época poeticamente frutífera, pois a saudade é inspiradora, e eu me dedicava a escrever versos para enviar junto às longas cartas. Alguns nunca foram publicados; no entanto, sobreviveram e estão gravados em nós. É bom voltar à leveza desses versos...

 

“Na alegria de cada encontro,

o prazer de estarmos juntinhos...

No sofrer de cada despedida,

deixo em você um pouco de mim.

 

Distante, tua ausência é minha dor.

Dos meus sonhos, és musa.

Em cada instante,

que tudo em mim seja apenas você.”

 

Depois que nos casamos, a morena organizou todas as cartas em uma pasta. Nunca mais li aquelas cartas, mas estão bem guardadas, talvez a nossa filha um dia as leia para saber mais da nossa história e tente entender como funcionava um mundo com pouquíssima tecnologia. E garanto – ela terá muito material para ler!

Ela descobrirá que, além das cartas, também enviávamos cartões. Outros tempos... Uma vez enviei um cartão imenso, que tocava uma musiquinha quando era aberto (quer algo mais ridículo que isso?) e o bendito extraviou e nunca chegou. Que decepção! Ela teria ficado nas nuvens com aquele “cartãozão”!

Fernando Pessoa sabia das coisas! Na pena de Álvaro de Campos, eternizou a constatação das ridículas e maravilhosas cartas de amor!

Quanto ao Dia dos Namorados, e daí que é uma data comercial? Está liberado dar presente, oferecer flores, sair para um lugar legal e, se desejarem, ficar em casa, saborear um bom vinho, recordar os caminhos pelos quais esse amor já passou e rir das cartas ridículas e daqueles momentos bobos que os apaixonados desfrutam e que, exatamente por serem ridículos, foram tão encantadores!

Um brinde ao amor!

 

“Nos versos em que anoiteço

dentro dos seus braços,

desconheço compassos

a tolher meus passos

em falsas urgências...

 

Se me embaraço em beijos

nos fios de seus lábios,

não careço alfarrábios,

santos e nem sábios

com vãs sapiências...

 

Eu quero apenas me afogar na melodia

e dedilhar outras notas

feito poesia.

 

Num átimo de eternidade

mais-que-perfeito,

porque não tem mais jeito,

viola-se o insuspeito

laço das cadências...

 

E eu quero ser apenas um suave aguaceiro,

semeando estrelas domingueiras

com seu cheiro.”

 

(Odete Sanábio, Canção pra Você)

 

* Texto escrito para a coluna A Poética do Olhar, do blog Bendita Existência (benditaexistencia.com.br)

Imagem: Arquivo pessoal do autor

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 12/06/2026
Alterado em 12/06/2026
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