A Máquina que Escrevia
Quando Carlos Drummond comprou sua Olivetti Lettera 32 num antiquário da capital, seu desejo era escrever suas histórias de um jeito original. O vendedor justificou que o valor — muito acima do esperado para a velha máquina — devia-se ao fato de se tratar de um equipamento especial, que já havia pertencido a um importante jornal; portanto, de suas teclas já haviam brotado notícias muito impactantes, algumas, aliás, responsáveis por alterar os rumos da humanidade.
Drummond, que fora assim batizado porque seu pai era fã do poeta mineiro, acabou herdando dele o gosto pela leitura e, do homenageado, algum talento para a escrita. Não herdou, é verdade, a verve poética; em compensação, gostava de criar histórias. Publicou duas novelas por uma editora independente, vendeu alguns exemplares em sua cidade, presenteou amigos e parentes, mas não foi além disso. Nenhuma crítica especializada, nenhum convite para palestra ou entrevista — nenhuma escola sequer se interessou por suas histórias.
Naquela manhã, quando saiu de casa disposto a comprar uma máquina de escrever antiga, sua cabeça fervilhava com uma nova história. Dessa vez, já se considerando um escritor experiente, desejava levar seu original datilografado à apreciação de uma grande editora e, quem sabe, ver seu livro em todas as livrarias, alcançando o tão sonhado sucesso.
Carlos caprichou na preparação. Colocou a máquina sobre uma pequena mesa na varanda, de frente para o jardim e, sentado numa confortável cadeira, enquanto ouvia o canto dos pássaros, passou a dedicar cada fim de tarde à sua criação. Todos os dias datilografava de três a cinco páginas, criando personagens, tecendo romances, descrevendo cenários e temperando tudo com um pouco de suas crenças pessoais. Sentia-se orgulhoso da pilha de folhas escritas que crescia ao lado da máquina. Acreditava, de fato, estar criando algo inovador no mundo literário.
Só que a Olivetti não pensava o mesmo.
Habituada às grandes notícias e à redação de artigos importantes, bem como aos diversos estilos de colunistas e cronistas renomados, a experiente máquina era capaz de identificar um bom texto e um bom enredo tão logo escapavam de suas teclas. Ela sabia, como ninguém, o que uma história precisava para atrair o leitor, pois era assim que os jornais conquistavam mais assinantes e mais clientes nas bancas. E era por isso que previa que aquela história que estava sendo escrita não chegaria a lugar algum.
No entanto, simpatizava com o escritor e gostava muito daquela varanda de vento fresco, rodeada por flores, pequenas árvores e pássaros felizes. No modo como a manuseava, no cuidado com as teclas e na atenção dedicada à fita, Carlos Drummond deixava transparecer um carinho sincero — tanto por ela quanto pela história medíocre que insistia em escrever.
Talvez por isso a Olivetti tenha decidido ajudá-lo.
Todas as noites, quando já subia a madrugada com seus silêncios e mistérios e o escritor, por fim, adormecia, as folhas datilografadas durante a tarde misteriosamente voltavam para o rolo da Olivetti que, incansavelmente, reordenava as frases, substituía parágrafos e eliminava excessos.
Nos primeiros capítulos, ela apenas corrigia os equívocos mais simples da mente acelerada e desatenta do escritor. Porém, à medida que a história avançava, a máquina — acostumada a escrever narrativas complexas — passou a alterar a trama, interferir nas descrições dos cenários e, vez ou outra, acrescentava algum detalhe que não havia passado pela mente do autor.
A madrugada na varanda tornou-se uma verdadeira loucura.
Dos galhos das árvores, corujas observavam atentas; no jardim, os grilos cantavam o mais alto que podiam, abafando o som das teclas que, frenéticas, martelavam novas palavras. As letras descartadas caíam ao chão e, por serem inúteis ao texto, transformavam-se em pequenas formigas que invadiam o jardim em busca de terra fofa para construir um lugar onde pudessem se esconder da fúria da Olivetti.
Folhas voavam da mesa para a máquina e da máquina de volta para a mesa, numa coreografia capaz de deixar qualquer humano boquiaberto.
As sábias corujas rapidamente entenderam o que estava acontecendo e passaram a ler a história que se desenrolava. Não satisfeitas, espalharam a notícia noite adentro e o jardim, antes pacato, passou a ser frequentado pelas mais diversas criaturas da noite: o Curupira, a Caipora, a Cuca, o Saci-Pererê e a Mãe-do-Mato.
As entidades debatiam com corujas e grilos quais seriam os melhores desfechos para a trama. A Olivetti, que a tudo captava com máxima atenção, incansavelmente reescrevia frases e mais frases, parágrafo após parágrafo, enquanto pirilampos curiosos formavam uma aura luminosa em torno da mesa.
Carlos Drummond, inocente quanto ao movimento no jardim, dormia o sono dos anjos.
Tarde após tarde ele tomava seu lugar na varanda, enchia o peito com o perfume das flores misturado ao da terra úmida e seguia escrevendo. Nunca relia as folhas já escritas, pois a história estava viva dentro dele. Cada personagem ocupava parte do seu ser. Carlos apenas seguia os próprios instintos. Datilografava até esgotar as ideias daquele capítulo, depois ia dormir e descansar a mente, esperando que, num sonho, surgisse a ideia para o capítulo seguinte.
Houve noites em que Carlos acordou brevemente, ouviu a algazarra de grilos e corujas e logo voltou a adormecer, embalado pelos sons da natureza de que tanto gostava. Dormindo, sonhava com seus personagens interagindo, relacionando-se, criando intrigas e aventuras. Acreditava, de verdade, estar a escrever uma verdadeira obra-prima.
Após quase três meses e mais de trezentas folhas escritas, Carlos Drummond reuniu todo o material, limpou e guardou sua querida Olivetti. Orgulhoso e cheio de si, foi apresentar a obra ao agente que lhe prometera mostrar o manuscrito a uma famosa editora. O agente garantiu que daria uma resposta assim que recebesse o parecer sobre a viabilidade da publicação.
Foram semanas de ansiedade e noites insones, até que Drummond recebeu a tão esperada notícia. Segundo o agente, o editor responsável estava maravilhado com a história e oferecia, em nome da editora, um contrato generoso para Carlos, que foi ao escritório assiná-lo mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, tamanha era sua emoção.
O livro foi publicado e uma grande festa de lançamento foi oferecida pela livraria mais importante da cidade. Muitos exemplares foram vendidos na pré-venda e os leitores estavam eufóricos na fila de autógrafos. Todos comentavam a história, a construção do enredo, o suspense que tirava o fôlego ao final de cada capítulo e as surpresas escondidas em cada página.
Mas o que deixaria os presentes verdadeiramente estupefatos estava reservado para o momento mais aguardado da noite: o discurso do escritor-revelação.
Carlos Drummond, empolgadíssimo com o lançamento, não conseguiu tirar tempo para ler o livro depois de pronto. Estava às voltas com a preparação do discurso; maravilhado com os banners e cartazes, não se cansava de admirar a capa do livro e de folhear as páginas de trás para frente e de frente para trás, sem conseguir se concentrar para ler um parágrafo sequer.
E nem precisava. A história havia saído de sua cabeça. Cada personagem, cada detalhe, ele sabia de cor.
Quando lhe foi dada a palavra, começou contando aos leitores as origens de sua inspiração e como decidiu ter uma experiência orgânica de escrita, datilografando cada página numa velha máquina comprada em um antiquário. O público estava encantado com a originalidade do relato.
Carlos passou então a narrar a criação dos personagens e algumas passagens que considerava as mais importantes da história. Para surpresa daqueles que já haviam lido a obra, o relato de Carlos não fazia qualquer sentido. Parecia que ele falava de outro livro.
A noite só não foi um fiasco total porque o editor, hábil, experiente e com interesses a defender, tomou a palavra, justificando o lapso pelo nervosismo do autor iniciante.
Dias depois, enquanto lia o próprio livro em sua varanda — confuso, irritado com o editor, culpando o revisor e, ao mesmo tempo, admirado com o que via brotar das páginas —, sem entender o que teria levado a tantas mudanças na sua história, mas feliz com o sucesso, olhou para o jardim e percebeu que havia ali um formigueiro em avançada fase de construção.
Não se lembrava de tê-lo visto antes.
Observou por um instante o movimento disciplinado das pequenas formigas e, a menos que estivesse fora do seu juízo, teve então a vaga impressão de que aqueles pontos não eram formigas normais. Pareciam minúsculas letras do alfabeto caminhando pelo jardim.
Realmente tudo à sua volta era um mistério desde a noite do lançamento. O formigueiro era o menor deles.
Imagem: Gerada por IA para este conto.