Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

Do Ferrorama às Fake News

 

 

Numa cidade do interior de Minas, nasci no final dos anos 70; portanto, fui uma criança dos anos 80 e um adolescente dos anos 90. Décadas efervescentes, marcadas por muitas transformações e expectativas quanto ao futuro, em meio a uma avalanche de “modernidades” que nos encantavam.

 

Guardo boas lembranças dos recreios na escola, onde, ainda sob o efeito hipnótico do filme De Volta para o Futuro, fazíamos suposições sobre os carros voadores que teríamos nos anos 2000. Depois de assistir ao incrível Top Gun, alimentei por um bom tempo, o sonho de um dia entrar para a Aeronáutica.

 

Divertíamo-nos com os Ataris e com as inúmeras opções de brinquedos da Estrela – tenho aqui, montado e funcionando, um Ferrorama XP-400, que ganhei aos sete anos. Evidentemente, também faziam parte dos nossos dias as brincadeiras de rua (pega-ladrão, rouba-bandeira, pau-na-lata, pique-esconde e muitas outras). Na pré-adolescência, éramos inocentes, puros e bestas – como diria Belchior – brincando de “caí no poço”. Impossível, para os adolescentes de hoje, sequer mensurar como era bom!

 

Mais um pouco e já ouvíamos as notícias sobre a chegada do telefone celular. Quanto avanço! Em 2000, tive o meu primeiro Nokia 5120, com o viciante “jogo da cobrinha”. Hoje, parece piada! Ainda não existiam as redes sociais; a internet era discada e servia para enviar e-mails, usar o MSN ou entrar nas aleatórias salas de bate-papo.

 

Por mais de dez anos, fui assinante da revista Superinteressante e acompanhava avidamente as pesquisas, os avanços científicos e a concretização de muitos progressos em nossa realidade. Ingênuo, acreditei que, com maior acesso à informação, à medida que a internet avançasse, as pessoas se tornariam mais sábias, sensatas, coerentes e racionais.

 

Então, chegamos aos nossos dias – e que dias!

 

Estamos prestes a fechar o primeiro quarto do novo século. Carros voadores e autônomos ainda são protótipos, da mesma forma que ainda fazem parte de um sonho distante a sapiência, a sensatez, a coerência e a racionalidade dos seres humanos.

 

É inegável que, em poucas décadas, avançamos séculos. No entanto, algo se descompassou nesse avanço.

 

Hoje, me espanto com a patrulha antivacina – logo as vacinas! Elas foram consideradas um dos maiores avanços do século XX, agora são vítimas de falsas notícias e são a causa de discussões acaloradas e sem fundamento.

 

Como se não bastasse, os noticiários das últimas semanas me fizeram querer chorar, no entanto, por vezes me peguei rindo dos absurdos desse nosso tempo.

 

Enquanto alguns homens sobem montanhas deixando rastros de lixo, em busca da masculinidade ancestral perdida, mulheres embalam bonecas e reivindicam o direito à “maternidade reborn”.

 

A fé, que antes era um lugar sagrado, terreno ocupado por devotos fiéis e líderes sérios e idôneos, teve seu espaço tomado por exploradores, pedófilos, abusadores de toda sorte e gente sem qualquer escrúpulo na arte de ludibriar. Num recente episódio tragicômico, surgiu até a figura do “pastor mirim”, numa clara demonstração de como se pode, ao mesmo tempo, manipular e roubar a saúde mental de um adolescente de quatorze anos, enquanto se explora uma multidão de gente que segue a manada sem qualquer pensamento crítico.

 

Aos líderes que não se corromperam, que entregam uma mensagem íntegra e vivem suas vidas pautadas na retidão, resta o sacrifício de nadar contra a maré, tentando provar, o tempo todo, que em meio a esse mar revolto de ondas hostis, ainda é possível encontrar alguns oásis que prezam por uma espiritualidade sadia e por pessoas honestas.

 

É sabido e noticiado que parte da população perde dinheiro e alma nas mordidas de um “tigrinho”, porém, quando se abre uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar aqueles que dormem num berço esplêndido, construído sobre o azar alheio, somos obrigados a assistir a um senador da República pausando um interrogatório para “fazer uma selfie” com a depoente.

 

Em sequência, num espaço de poucos dias, no mesmo Senado Federal, uma ministra de Estado – cuja vida é pautada pela luta em defesa da causa ambiental – foi covardemente atacada em sua condição de ministra e de mulher, além de ser acusada, por alguns senhores, de trabalhar contra o progresso do país por sua “obsessão” em não conceder licenças ambientais sem os devidos estudos.

 

– “Se ponha no seu lugar!” – foi o que disse o presidente da sessão à ministra.

 

Ah, mas a notícia que tomou as redes sociais na mesma semana, foi o anúncio do fim do casamento da moça do “tigrinho” ... (sem comentários!)

 

Nessa era de tanta acessibilidade, de tantas bandeiras hasteadas, há quem dedique tempo a propagar, intencionalmente, notícias falsas que, inacreditavelmente, acabam tendo mais credibilidade do que as informações verdadeiras. É triste observar que, nessa “lavoura das informações”, a maior parte das pessoas não está interessada em separar o joio do trigo. Se nesta plantação a fartura é de joio, vamos pastar e comer até empanturrar!

 

E, por fim, chegamos à era da inteligência artificial, que tanto pode ser uma excelente ferramenta para facilitar as nossas tarefas, como se tornar uma arma poderosa nas mãos de pessoas inescrupulosas.

 

Enquanto as IAs invadem nossas vidas, escrever no Bendita Existência tornou-se um ato de resistência. Dedicar tempo pensando um tema, trabalhando as ideias e construindo os parágrafos, na tecitura de um texto orgânico e artesanal, não nos livrará da pergunta: Você mesmo escreve os seus textos ou usa IA? – ainda mais se for um texto literário ficcional.

 

Sejamos resistência por meio do pensamento crítico e da busca de informações seguras.

 

Enquanto desfrutamos do melhor que o nosso tempo nos oferece, que as nossas lutas sejam pelo bem do planeta e de todos os que aqui habitam. Sejamos gratos por existir nesta era incrível, de tantas descobertas e facilidades.

 

Como já escreveu certo poeta contemporâneo, em suas cartas intituladas Segundo Neurônios, “Ouça boas músicas, leia os poetas e honre os educadores. Que a nossa bandeira seja o amor, a nossa guerra por justiça e as nossas orações, pela paz”.

 

 

Texto escrito para a coluna A Poética do Olhar, do blog Bendita Existência (benditaexistencia.com.br)

Imagem: Arquivo pessoal do autor

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 20/12/2025
Alterado em 20/12/2025
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