Aguerrida
Sou testemunha ocular da transformação que houve na vida da mulher simples, de fibra, que dava duro para criar suas três crianças e, na solidão da noite, derramava sua alma em folhas e mais folhas de caderno. Uma pedra bruta, uma joia pronta para brilhar, bastando ser descoberta e lapidada. Coube a mim a sorte do garimpo.
Vi sua vida se transformar a partir da publicação dos seus escritos, que retratavam a realidade da gente simples, ignorada nas encostas das metrópoles. Essa gente que faz a engrenagem urbana girar durante o dia e, à noite, se recolhe para não incomodar.
Acompanhei a trajetória da família que desceu o morro para a casa confortável na rua de asfalto. A lágrima clara rolou pela pele escura, molhando o rosto de felicidade, pois, enfim, desfrutaria dias melhores. O livro da vida entrava, a partir de agora, num capítulo feliz.
Entretanto, nem tudo são flores. Quem se atreve a escalar a pirâmide social, numa sociedade hipócrita e preconceituosa, não tem direito a uma vida fácil.
Com dor, vi a poetisa ser barrada em salões, não só pelas palavras publicadas, certeiras como flechas naquelas almas perfumadas, porém apodrecidas, mas pelo jeito simples, pelo vocabulário sem rebusques, pela pele preta e brilhante, que denunciava a chaga do nosso abismo social.
Sou testemunha ocular da transformação que houve na vida da mulher simples, que hoje tem comida na mesa e roupas novas, que precisa lutar outras batalhas, pois, como sabemos, a cada dia, basta o seu próprio mal.
* Este texto integra a coletânea "Entre o Orun e o Ayê - Carolina e Abdias"
Imagem: revistapesquisa.fapesp.br/autora-multipla/ (Arquivo /Estadão Conteúdo)