Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

Uma Notícia e Alguns Registros

 

 

Manhã de domingo. Mais um dia em casa, assim como já estão sendo todos os dias de feira nestes tempos pandêmicos.

 

Acordo me sentindo estranho, ainda mexido com a notícia recebida na noite de sábado, sobre o falecimento do Sr. Rodolfo, já avançado em seus noventa e poucos anos.

 

O Sr. Rodolfo foi meu professor de violão. Desisti das aulas porque o violão que eu tinha era horrível. Aprendi a tocar saxofone e fomos companheiros em uma banda de música, na qual ele tocava um enorme sousafone e, posteriormente, passou a tocar bombardão, ou tuba sinfônica, que, para marcações do baixo, substituiu o velho sousafone em muitas bandas contemporâneas e era um pouco mais leve para a sua já avançada idade. O Sr. Rodolfo também era o pai do Eduardo, um dos meus grandes amigos de adolescência e juventude. Exímio flautista e estudioso de teoria musical, Eduardo chegou a ser o maestro da banda. Há quase uma década Eduardo foi descobrir os sons de outros mundos.

 

Com o domingo envolto em lembranças, revi algumas fotos das noites quentes de sábado quando, após os ensaios da banda, reuníamos alguns amigos para virar a noite fazendo churrasco, ouvindo música e conversando sobre os nossos sonhos de futuro, as nossas aventuras e paixões. Algumas vezes os churrascos aconteciam na minha casa, mas, na maioria das vezes, era na casa do Eduardo que a turma se reunia, perturbando o sono do Sr. Rodolfo, que nos tratava muito bem.

 

Folheando o álbum de fotos e revendo as nossas fisionomias naqueles dias alegres, sou tomado por um turbilhão de recordações e percebo como os retratos têm o poder de congelar bons momentos.

 

Viajei nas fotografias de família, revendo caras e cenas da minha infância. Relembrei acontecimentos, ri muito dos cortes de cabelo e das combinações mais impensáveis que, no entanto, refletiam a moda das roupas de uma época. Ver os velhos em suas juventudes é, ao mesmo tempo, feliz e impactante. A ampulheta não para de escoar o tempo.

 

É notável o capricho dos retratos antigos, emoldurados em quadros em preto e branco que ainda se veem nas paredes das casas, muito comuns nas cidades interioranas, e que trazem uma nostalgia gostosa de um tempo que parecia não ter pressa, de quando a palavra era tomada por compromisso firmado e os filhos rodeavam os pais com respeito e admiração.

 

Sou saudosista em relação aos registros fotográficos feitos a partir dos filmes analógicos. Aquela ansiedade boa para ver as fotos reveladas e a torcida para que nenhuma tivesse sido queimada. Ou o contrário: tomara que aquela foto tirada sem permissão não tenha saído!

 

Por causa do custo, pois além de comprar o filme para a máquina, ainda era preciso pagar para revelar, os retratos eram mais valorizados e era uma pena perder ao menos um deles. No entanto, quando uma relação amorosa chegava ao fim, a maioria das pessoas estava se lixando para o valor investido, as fotos eram rasgadas, picadas, queimadas, como num ritual para fazer o outro desaparecer definitivamente da existência. Como não havia cópias salvas nos computadores ou nas redes sociais, estas eram definitivamente perdidas.

 

Ainda por razões econômicas, retratos só eram tirados em momentos muito especiais, como aniversários, noivados, casamentos ou naquelas raras ocasiões quando toda a família se reunia para passar o dia. Nesses dias, cada um caprichava na escolha da vestimenta para sair bem na foto.

 

De posse dos nossos modernos smartphones, sempre à mão, hoje podemos registrar os bons momentos todas as vezes que temos vontade. Registramos as baladas, os primeiros passos do filho, a festa na escola, o almoço de domingo, um passeio ocasional, um encontro inesperado. A qualquer hora, o tempo todo, lá está, quase sem custo, o instante congelado na tela e, minutos depois, espalhado aos quatro cantos do mundo pela magia da internet. Entretanto, como tudo na vida, existe um outro lado...

 

A efervescência dos cliques digitais contemporâneos possui, se comparada aos retratos daquela geração analógica, um “quê” de superficialidade. As pessoas ficaram frenéticas em registrar tudo a todo tempo para postar e ganhar likes nas redes sociais. Acontece de um encontro rápido e ocasional ter sido registrado numa selfie e ganhado centenas de curtidas nas redes enquanto, na verdade, as palavras foram poucas, frias e formais. Há retratos em excesso de encontros pouco afetuosos e sem importância.

 

Os algoritmos das redes sociais e aplicativos de imagens costumam nos remeter a registros da mesma data de anos anteriores. Às vezes, experimento um misto de emoções com essas lembranças... “olha como eu estava aqui!”, ou ainda “nossa, já faz tanto tempo que não nos vemos, preciso entrar em contato” e tem aquele “nossa, ainda éramos amigos nessa época...”. Pois como bem cantou Érika Machado: mundo girando modifica tudo... e sempre é assim, dia após dia, até o fim de tudo ou até o fim de mim.

 

Nem sempre há um retrato físico para guardar. Gosto quando encontro amigos e a conversa flui desembolada. No início, todos querem falar ao mesmo tempo até que chega o momento em que todos se escutam, se emocionam, se importam pelo que o outro tem a dizer. Por vezes, quando o primeiro se levanta para sair, alguém se lembra de fazer um registro. Outras vezes, ninguém dá importância. Lá se vão, com os seus smartphones sem nenhum click do encontro, porém, estão felizes, com os retratos que perdurarão pela vida afora gravados na alma.

 

Sobre esses retratos gravados no íntimo do ser, os considero os melhores. Nas memórias da nossa existência estão as paisagens que nos marcaram, as lágrimas que nos emocionaram, sorrisos tímidos, gargalhadas inesquecíveis, antigos amores...

 

Bom lembrar que, na maior parte das vezes, amores passados fazem parte daquelas imagens que deletamos dos arquivos por bom senso ou por questão de sobrevivência. No entanto, as lembranças estão bem arquivadas, pois é impossível apagar o que foi vivido. Que atire a primeira pedra quem não tiver um álbum organizado em suas memórias adormecidas. E que assim permaneçam.

 

Iniciei lembrando do Sr. Rodolfo. Nós nunca fomos fotografados juntos. Já não o via desde a partida do seu filho Eduardo, de quem guardo alguns retratos em álbum físico. Os momentos passados com ambos ficaram registrados na minha alma com intensidade e em cores fortes me arrebatam...

 

Quando ouço um dobrado bem executado...

 

Quando assisto ao belíssimo filme “A Encruzilhada”, com Steve Vai duelando no inferno...

 

Quando me lembro de uma paixão adolescente das aulas de violão e de não ter aprendido nada por causa daquele péssimo Tonante que me matava de vergonha...

 

Quando como mortadela com muito molho de pimenta...

 

Quando escrevo, agora, ao som de Kitaro.

 


* Escrito num domingo de junho/2020
Ilustração: 
Gisely Poetry

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 12/06/2021
Alterado em 09/06/2022
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