Se for poesia...
venha, pois pior que estar só é estar ausente de ti.
Textos
Para onde foram os meus dias?
Em qual temporal retornaram minhas lágrimas?
Por que há despedidas?
Ante a dor, silêncio ou blasfêmia?
Para as incertezas há respostas?
 
Dentre tantas perguntas, questiono
a razão de estarmos aqui
Tudo se resume em produzir para ajuntar
e depois gastar o que se ajuntou para obter
outras coisas que outros produziram
 
E vou estabelecendo juízo, criando conceitos
adquirindo conhecimentos, questionando razões
errando muito, acertando bastante
segundo verdades que não estabeleci
mas aceitei acreditar
 
E onde estão aqueles que dizem deter o saber
e conhecer a verdade que apregoam?
O que os motiva a levantarem de suas camas todos os dias
e bolarem um monte de estratégias frágeis
para que outros acreditem em suas teorias?
 
E dá-lhe seminários bem estruturados
Tantos passos para isto e outros tantos para aquilo e
um cara de barba farta e pouca quilometragem
dizendo que descobriu o segredo do sucesso
com discursos que só lhe ajudam e lhe enchem os cofres
 
E por que eu, não estando inserido no mesmo contexto
vivendo outra vida, compartilhando apenas do mesmo ar
com as experiências que me são possíveis
me sujeito a perder tempo lendo tais mestres
e tento moldar a minha vida a seus ensinos?
 
E me pergunto a razão de ser obrigado a escolher
um ser humano como eu para elaborar as leis que vão me cercear
Dou créditos aos que prometem o bem para o bairro, para a cidade
juram melhorar as condições no estado
e garantir qualidade de vida à nação
 
Mas a mesma mão que usam para afagar durante as campanhas
usam para sacar as rolhas e brindar a números de um extrato suspeito
contabilizados em transações espúrias e paradisíacas
Enquanto nos palácios, aonde crescem em crassitude,
planejam o discurso que lhes garantirá a perenidade
 
Às 4:30 da manhã o meu despertador me acorda
preciso sair e pegar o ônibus das cinco e meia
Encaro um dia desprovido de alegrias
Quando retorno, a lua já está alta no céu
a felicidade da filha e o sorriso da mulher me acolhem
 
Nesses momentos de suposto arrebatamento
olho novamente a lua pela janela e nos identificamos
Ambos brilhando, ambos aparentemente belos
iluminados pela luz que nos chega
por quem, mesmo distante, se importa
 
Assim os dias de feira vão passando
esperando um final de semana sem tragédias
para reunir os amigos e rirmos de bobagens
Falando obscenidades e gargalhado com piadas sujas
enchemos a cara de cana e chamamos a isto de felicidade
 
Enquanto no mesmo espaço-tempo outros
penduram os seus ternos e se encontram em saunas e haras
para estabelecer acordos que, entre papéis e coquetéis
decidirão o fatídico destino daqueles que, sorrindo
pensam que o por vir não será mais que uma ressaca
 
Consumo livros, revistas e artigos
que na mesma proporção, alimentam meu vão conhecimento
e aumentam a minha desilusão com os dias
ao perceber que de pouca valia são
para abrir portas e encher a despensa
 
Assisto às notícias que tornam o meu jantar indigesto
ao ver a minha liberdade ameaçada porque
uma caricatura de Dom Quixote não quer voltar pra casa
travando batalhas imaginárias, enquanto num lugar do cosmos
Rubem Alves e Paulo Freire constatam terem lutado em vão
 
Qual será o futuro dos nossos jovens? Como competirão?
Qual a motivação que levará um professor a lecionar?
O ensino público, ao invés de orgulho, nos causa vergonha
mas o ministro disse que a educação não é para todos
e já sabemos que há muito interesse na ignorância de um povo!
 
O meu emprego anda ameaçado e começo a me sentir culpado
por ter permitido nascer uma filha neste mundo inseguro
sem poder garantir que ela terá a oportunidade de sonhar
porque tendo ela desenvolvido senso crítico, não sendo da classe dominante
talvez no seu lugar de fala encontre a repressão da mordaça
 
E já estará no lucro se dedicar o amor e o corpo
a alguém que a ame com seus valores e paradoxos
que respeite os seus sentimentos e os retribua com gestos felizes
E que trate a sua carne não como aquela mais barata do mercado
mas como iguaria que não se pode ferir
 
Não vejo sentido em nada! E por que veria?
Todos dizem acreditar no mesmo Deus
mas falam de deuses múltiplos, que me dão náuseas
Divindades com crise de identidade
e delimitações éticas muito relativizadas
 
Ainda trago ranços, marcas e trejeitos do passado protestante
mas também uma gratidão imensa ao Eterno Pai
pela luz que clareou as minhas trevas
e me permitiu romper com as algemas da religião
a tempo de não me contaminar com o status quo

Ando pelas ruas e tenho nojo
das muitas placas, da ostentação dos prédios
que vendem um deus que não se doa e
oferecem um divino que aceita barganhas
Tão corrupto quanto seus emissários
 
Ao ler os evangelhos, conheci um Jesus contracultura
que quando ia a templos ou palácios não se esquivava a
revirar mesas, denunciar e protestar contra as injustiças
O Jesus que conheci não fazia rodinhas de orações públicas
que encobriam conchavos de gabinetes e salas de jantar
 
O Jesus que eu conheci sentava em rodas com maltrapilhos
para contar parábolas e repartir a refeição
Não subtraía dos seus o que já lhes faltava
quando ia a festas, era para estar no ambiente do povo
Bebia, comia, dançava e conversava alheio às castas

Como posso aceitar um deus egoísta de uma só crença?
Se há pluralidade de raças e mistura de cores
por que não aceitar as múltiplas liturgias?
Cruzes, fogueiras, flores e oferendas
manifestam a diversidade deste mundo de Deus!
 
O povo de pele calejada ajoelha e pede
por um pouco de arroz e feijão no prato
Acende uma vela por saúde sem consórcios
por um emprego que garanta alguns direitos
e pelo bem da família nem sempre estruturada
 
Pelo seu amor, oh Deus!
Aonde estás enquanto essa gente se lasca?
Aqueles que exploram em Teu nome
se trancam em seus castelos quando o barranco desce
na chuva torrencial soterrando os barracos
 
É muito fácil olhar da janela do apartamento e
ver na praça um ser humano encolhido de frio e
fazer o sinal da cruz sob o agasalho
Não vai resolver o problema. Podia ao menos
estar disposto a descer as escadas e abrir mão de um cobertor
 
Quando vejo as filas para receber a marmita de sopa na esquina
fico feliz e tenho esperança no ser humano
Há quem se disponha a ajudar, a abrir mão do tempo
Ali sim, está a verdadeira religião, mãos estendidas
dando e recebendo, além do prato, um olhar
 
Volto para ler os poetas, os filósofos, ouvir os músicos
expressões genuínas de clamor e celebração da alma
Vejo nas exposições a liturgia da contemplação
que retrata e denuncia tanto a beleza
quanto a dura realidade do nosso cotidiano
 
Penso que o lugar sagrado deva estar num sarau de muitas entidades
onde cada artista incorpore o melhor espírito
sem joelhos feridos na aspereza do concreto das escadarias
mas que nos leve às lágrimas pela beleza dos versos cantados
e pelo calor dos abraços apertados
 
Que as flores exalem o melhor perfume e
se um espinho vier a ferir, que seja a oportunidade
para um beijo que cura, um carinho espontâneo
que, inesperadamente, pode fazer brotar um amor
sem cor, sem gênero, sem equações exatas a resolver
 
Desejo crianças barulhentas correndo nas praças
de cabelos desgrenhados, divertindo nos chafarizes
e lambuzando a barriga desnuda de sorvete gostoso
com aquela cara toda marcada de algodão doce
A mais bela face do Sagrado a sorrir para converter adultos sisudos


 
(Imagem: arquivo pessoal)
Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 07/06/2020
Alterado em 21/07/2020
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