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Textos
Em ‘Na Solidão do Outro’ Mauro Brandão nos conduz à história de Frederico Zanon, um professor de matemática que levava uma vida insignificante, de um ponto de vista generalizado, em algum lugar nos arredores de Belo Horizonte.

O nosso encontro com os fatos que alteram a vida de Frederico se dá num momento em que ele, já divorciado e pai de um casal de filhos, começa, através de sonhos, a ser trasladado para a vida de outras pessoas, conhecidas ou não, e ter experiências reais vividas por estas pessoas em algum lugar do passado.

A princípio tais experiências podem causar inveja e outras múltiplas sensações, tanto na personagem quanto nos leitores. Porém uma série de implicações se revelarão ao longo da história e oferecerão outros prismas, que poderão alterar o foco de cada olhar a partir das percepções pessoais, dos próprios conceitos ou pré-conceitos e das muitas formas de observar o curso da existência, seja de ordem moral e ética ou por uma vivência pessoal.

O que pode ser percebido é que após cada sonho Frederico Zanon acorda outra pessoa. Observar determinado fato de uma existência que não é a sua, por um ângulo que não seja o seu olhar, modifica o próprio jeito de ver. Ele passa a rever conceitos, a questionar os porquês de certas situações e a considerar outras suposições. Vai acontecer de, vivendo na pele outra pessoa, ele perceber a solidão que está na alma de uma terceira. E tal fato o levará a muita reflexão e uma tentativa de alterar o curso da sua própria história, bem como a de outras pessoas. Como já cantou o poeta Arnaldo Antunes, “o seu olhar melhora o meu”.

A leitura é leve, ora divertida, ora dramática. Numa leitura superficial não parece ser um texto que apresenta grandes questões, o que não será um problema, porque é um livro bom para divertir e passar o tempo. Mas aqueles que buscam reflexões mais profundas terão um prato cheio em cada drama vivido pela personagem principal.

‘Na Solidão do Outro’ não traz seres humanos perfeitos, politicamente corretos ou cheios de lições morais a ensinar. Muito pelo contrário! São apenas humanos carregados de idiossincrasias, conflitos, contradições e segredos ocultos.

Portanto a história nos revela que são nessas contradições que mora a verdade em cada vida. São os segredos que moldam as máscaras que cada um usa para levantar e sair de casa todos os dias. Não há ato sem consequência e nem ser humano que aja por puro impulso, sem que tenha um bom motivo por trás de cada ação. E esses motivos podem não ser tão nobres.

Independente da crença ou não crença, o acerto de contas individual acontece nesta vida, neste plano, e esta é a solidão que cada um carrega. O seu carma, a sua cruz, o espinho na carne da sua história.

Frederico Zanon teve a oportunidade de praticar a empatia e se modificar da maneira mais sobrenatural e visceral que possa existir: vivendo e sentindo a solidão do outro. E qual será o resultado disto? Como esse professor de matemática, analítico, cartesiano, mais em sua maneira de pensar do que de viver, lidou com o impacto da lava vulcânica que derramou sobre as rochas do seu ser?

Tais mudanças são tão bruscas que o leitor poderá se sentir perdido num dado momento. Talvez pense que o autor desviou do propósito e mudou o curso da história. Mas o desfecho é impactante. Os mais analíticos e céticos pensarão por um bom tempo sobre esse negócio de se sentir outro, enquanto os mais sensíveis fecharão a contracapa emocionados.

'Na Solidão do Outro' é uma história sobre ressignificação.

 
“A lógica matemática e cartesiana é insuficiente para explicar a existência, mesmo que esta lógica decifre todas as suas regras. A pergunta sem resposta está por trás da própria existência e da vida. O que nos faz sermos únicos e ao mesmo tempo ligados em uma só existência?”
(pag. 289)





Título da Obra: Na Solidão do Outro
Autor: Mauro Brandão
Editora Letramento, 2017
ISBN:
978-85-68275-54-2
Nº de páginas: 334
Foto do livro para a resenha: Jefferson Lima
Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 20/04/2020
Alterado em 21/04/2020
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