Entre, aproveite, aqui tem poesia e algo mais...
"o ofício dos artistas é elementar para manter a saúde psíquica sem entorpecer-se"
Textos
Perto das dezoito horas, num dia de feira qualquer,
em tempos de pandemia e falta de consciência,
em dias de escassez e falta de estrutura,
numa época de especulação e falta de informação,
quando a ganância de muitos escancara a nossa desigualdade social,
aquela turma que saiu de casa pra correr atrás do sustento
agora tenta voltar e descansar de mais um dia,
pois, querendo Deus, ainda de madruga começará tudo de novo.

Quem não pode se dar ao luxo de se guardar em quarentena
não está preocupado com reprises de novela ou com heróis de Big Brother.
Agora não mais se vê os estudantes com seus fones e mochilas,
mas ainda se enfrenta a fila e o ônibus lotado.
Por displicência ou teimosia, alguns velhos ainda se arriscam
entre aqueles que realmente precisaram sair e agora retornam.
A maioria são os trabalhadores dos serviços essenciais
e os autônomos, que apostam a própria pele pelo pão de cada dia.

Tem gente preocupada, gente cética e gente incrédula,
afinal de contas, nem por causa da AIDS o mundo parou.
Ficando em casa, a comida não brota e as contas não se pagam,
até os profissionais da saúde se dividem.
Alguns, temerosos, relatam os casos que vivenciam todos os dias,
outros se acham inatingíveis, creem não ser tão grave assim.
Ainda outros, surfam na onda de fabricar e vender máscaras,
garantindo, assim, uma renda extra, que pode fazer muita diferença.

Há quem seja mais cuidadoso e fica meio de longe,
quem não está dando a mínima e se aperta no busão lotado.
Há quem acredita ser o vírus um castigo de Deus
e quem pensa que tudo não passa de uma boataria.
Todos estão cheios de argumentos e certezas
e, em meio a perdigotos e gestos exaltados, a discussão rola solta.
Sem nenhum embasamento técnico ou científico,
todos são médicos, filósofos, políticos ou profetas.

Alguns culpam o maior canal de televisão
de ter inventado tudo para derrubar o presidente.
Esses ignoram a veracidade das notícias
e curtem os compartilhamentos das redes sociais.
Outros colocam a culpa no presidente, que subestima a crise,
que não se preocupou em providenciar uma estrutura mínima
e, ainda por cima, fala um monte de coisas sem saber do que fala.
Mas talvez ele seja bom, pois até providenciou um auxílio extra.

Os que acreditam num prenúncio do apocalipse
culpam os chineses pagãos, os gays e o desfile da Mangueira no carnaval.
Aterrorizados, pregam a conversão a Cristo como válvula de escape
e até acreditam que Malafaia, Santiago, Macedo e Feliciano falam por Deus.
Os que defendem a ciência não conseguem ganhar na discussão,
ainda que sejam crentes numa fé sobrenatural, são chamados de ateus.
Não adianta defender os cientistas e acusar a falta de verbas para as pesquisas,
seja no Show da Fé ou no cercadinho do Alvorada, a razão fica do lado de fora.

Essa turma que sai no ônibus das cinco e meia e volta sob a lua das dezoito
vai chegar em casa exausta, querendo um banho e alguma coisa pra comer.
Vai ganhar um abraço dos pequenos e colocá-los pra dormir.
Não vai racionalizar sobre o que diz o noticiário, pois as suas convicções são mais fortes.
Essa gente não quer entender a briga de ministros, governadores, prefeitos e presidente.
Não interessa se o Congresso mandou para o Senado ou se o STF anulou o decreto.
Ela quer saber quem foi o filho-da-puta que mandou reduzir o fluxo dos ônibus
e quem vai cuidar das crianças, se a escola demorar a retornar com as aulas.

O cara que está cochilando no ônibus enquanto volta do trampo
não está preocupado com o preço do álcool em gel ou outras modernidades.
Desde pequeno ele aprendeu que se lava é com água, sabão e bucha,
ele quer saber é o porquê da carestia do preço da feira, do açougue e do mercado.
Ele, que mal tem acesso a um posto do SUS, não se importa com a briga da Cloroquina,
e ouvir falar que vai morrer muita gente não faz grande diferença na sua vida
(não é de hoje que ele já sai de casa sem saber se vai voltar).
Ele só pede a Deus pra morrer sem dor, pois, de doída, já basta essa droga de vida.
 
Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 10/04/2020
Alterado em 28/02/2021
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