caminhos
você esteve presente
mesmo na sua ausência tão palpável
nunca trocamos uma palavra
de carinho ou de elogio mútuo
não houve espaço para
a menor manifestação do
que pudesse nos unir
nossos olhares nunca se comunicaram
não existiu um gesto sequer
que nos permitisse sentir um ao outro
você se deixou existir como um vazio
concreto, denso, repulsivo
a qualquer desejo de me achegar
adaptei-me à sua distância
aprendi
sobrevivi
não importa se doeu
se em você havia amor
não permitiu que eu soubesse
sei do que me habitava
ainda que adormecido e ignorado
sim
duas vezes ele despertou:
na primeira
ignorei ante a sua displicência
na segunda
sofri uma estranha frustração
por discernir em mim o amor que sentia
não havia razões para estar ali
embora o amor não tenha razões:
“invade e fim”
exorcizei minha angústia
numa exposição de fotos em preto e branco que
retratavam a solidão das estradas ermas
e dos andarilhos que por ela transitavam
talvez eu tenha me identificado
também me via junto às almas
por trás daqueles olhares
você poderia ter usado a grama como tapete
para suavizar os passos no caminho
de que vale construir jardins
e seguir sobre cascalhos?
talvez se tivesse escutado “epitáfio”
teria sabido que, assim como as flores
a alma humana é frágil, sedenta
de carinho e um pouco de atenção
talvez você tenha sentido e
sem perceber, se omitiu
que pena!
como saber?
e daí?
também sigo meu caminho
pavimento a minha história, mas
já sabendo que muitas perguntas
ficam sem respostas nesta vida