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Textos
Final de mais uma sexta feira na faculdade, todos os alunos saem eufóricos para viajar e aproveitar o carnaval das mais diferentes maneiras.

Sem namorado, sem convite para qualquer folia, sem dinheiro para sumir do mapa e sem disposição nem fé para retiros espirituais, Bella fazia parte do seleto grupo que ia aproveitar a folia ‘at home’.

A princípio, ficar em casa poderia ser um problema. Aos 19 anos, com as redes sociais turbinadas de fotos da galera festejando e namorando, abrir mão do carnaval poderia ser deprimente e, por que não dizer, desesperador. Mas Bella não estava mesmo para agito: a faculdade de engenharia química era legal, mas ainda havia dúvidas se era mesmo o que queria para seguir carreira. Mesmo estando já no início do terceiro período, não se sentia entrosada com as pessoas mais animadas da turma e, como se não bastasse, não estava numa maré muito boa para os homens.

Com este prognóstico, se recolher, tentar descansar e colocar os estudos em dia acabava por ser uma boa opção. Também era uma oportunidade para curtir sua família, coisa que nem sempre era possível. Bella precisava relembrar como era prazeroso e divertido ter alguns dias em companhia das pessoas que viviam com ela na mesma casa – saber o que faziam, como viviam, por onde andavam e o que estavam planejando.

No sábado as coisas começaram a ficar mais animadas. Bella é acordada com a notícia que, além dos pais, da irmã mais velha e do irmão caçula, três primos do interior estavam chegando pra passar o feriado na capital do estado. A aconchegante cobertura, situada no quarto andar de um prédio modesto, ganhou ares de festa. Começou um corre-corre para preparar uns tira-gostos, gelar uma cerveja, selecionar uma playlist animada... Afinal de contas, se na noite de sábado a casa estaria cheia, era bom que tivesse no clima, que poderia bem ser o aquecimento para que a turma se animasse a curtir algum bloco de rua no domingo.

E dá-lhe fila para o banho, uma roupa confortável e aquele retoque na decoração para deixar o apê mais bonito!

A noite estava perfeita. Música alta, muitos casos engraçados, gargalhadas escrachadas e recordações que só vêm à tona nesses momentos ímpares de família reunida. Bella, curtindo este raro e delicioso momento, conseguiu esquecer dos bailes e das tantas baladas carnavalescas que ‘bombavam’ pela cidade afora. Foram dormir alegres, leves e bêbados, como convém a bons foliões depois de algumas dúzias de garrafas vazias.

E já era domingo...

E quem poderia imaginar que o melhor batuque da noite ainda estava por começar?

Por volta das quatro e meia da manhã Bella, que já dormia um sono pesado, acordou com um barulhão! Sua mãe estava histérica, dando gritos apavorados, todas as luzes da casa estavam acesas. Os primos estavam de olhos arregalados, levantando os colchões espalhados pelo chão e correndo para o corredor aonde ficava o banheiro. O irmão caçula não se incomodou e continuava dormindo o sono dos anjos, enquanto a irmã mais velha tentava manter a calma.

Bella, pensando que algo muito grave havia acontecido, se levantou meio sonâmbula, tropeçando e procurando entender sabe lá o quê, enquanto a mãe, com uma vassoura nas mãos, tentava explicar ao seu pai que tinha visto um rato no banheiro. O pai, com os olhos vermelhos de um sono etílico, sem saber se estava acordado ou tendo um pesadelo, tentava racionalizar a possibilidade de um roedor ter subido quatro andares de um prédio para usar o banheiro da sua família: “só pode ser pegadinha de carnaval!” dizia ele.

Por fim, desistindo de entender os caminhos do asqueroso folião e, sem pensar nos motivos que levaram um rato a procurar o seu banheiro para satisfazer as necessidades, o pai apoderou-se, cheio de pose, da vassoura que estava com a mulher. Fortemente armado, abriu devagar a porta do banheiro para certificar da localização exata do monstro, - àquela hora da madrugada, alcoolizados e sonâmbulos, o roedor já havia se tornado um ser kafkaniano, tal o escândalo que eles faziam – tomando todo o cuidado aonde pisava, olhando para todo lado e para lugar nenhum, fechou a porta e, com a voz sumindo de tanta ausência de coragem, disse: “acho que não tem jeito de matar o rato, vamos ter que chamar o Corpo de Bombeiros”.

Todos caíram na risada e no deboche. Era o ‘Rei da Banda Mole’!

Bella só pensava na vergonha que seria se os bombeiros chegassem com sirenes e refletores ligados, com todas aquelas parafernálias de resgate, e constatassem que tudo não passava de um ratinho no banheiro e um homem do tamanho do seu pai tremendo de medo! Ela deu uma bronca daquelas de curar qualquer ressaca, exigiu que seu pai tomasse postura de homem e enfrentasse o desafio de matar um rato.

Depois de tanta humilhação, obrigado a provar quem era o macho alfa da casa, o homem corajoso, que até então estava escondido em algum cantinho da alma daquele mequetrefe, entrou no banheiro com vassoura em punho, subiu no vaso sanitário e, por mais de cinco minutos, sambou, batucou, repicou a vassoura em todas as quinas pra não deixar a desejar a nenhuma passista de Escola de Samba. Naquele momento sublime, nem a bela mulata que no exato instante desfilava na Avenida Afonso Pena pela Acadêmicos de Venda Nova, seria capaz de superá-lo.

Ali, naqueles menos de 10 metros quadrados, o pai de Bella fez seu próprio carnaval. Terminou o desfile vitorioso, de cueca preta e chinelo vermelho, fazendo do rato morto o estandarte de um campeão com nota 10 em todos os quesitos (“até de coragem!”, se gabava).

Com gostinho de vitória voltaram para o seu sono, cada um com a sensação de que tinha a melhor versão de uma boa história pra contar por muitos carnavais!



(Imagem: Google)
Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 12/03/2014
Alterado em 18/02/2020
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