Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

confissões

doutor

estou aqui nem sei o porquê...

talvez para tentar conhecer

os vários seres que me habitam

todos, uma variação de mim mesmo

(como uma versão distinta do eu)

cá estou

sentindo-me como numa forca moderna

sob um céu de concreto tudo me parece cinza

neste cubículo tudo é novo, mas meu conteúdo é idoso

devo dissecar, escancarar e esvaziar meu interior

correntes me confundem, algo particular me prende

e na ausência de algo peculiar não me identifico

travo – e tudo o mais que disser será duvidoso

não sei ao certo como te contar

que sou feito de tudo um pouco...

habitam, lado a lado, bem e mal

doçura e perversidade coexistem

entrelaçam-se, manifestam-se

interagindo em Saara e sal

pinto estrelas em meu céu particular

saem de mim gotículas de um azul infinito

e volto a sorrir enxugando a teimosa lágrima

ainda há chance

para o mundo que vejo!

e sigo a pensar que nem tudo está perdido

confesso-me metamorfose

um ser tranquilo e sensato, tempestade e ventania

um conjunto de contradições e certezas

amor e ódio, carinho e desapego

música e silêncio, razão e poesia

sou poeta!

em mim habitam os mais lindos versos

também os piores pensamentos

no meu coração tocam canções maravilhosas

e planos diabólicos são gerados

na minh’alma habita o sagrado

pelos meus poros escapa o profano

quem sou eu?

sou as diversas imagens que penetram os olhos

daqueles que me olham de viés

anos de terapia e alguns fantasmas continuam aqui

em algum lugar dentro do peito

acorrentados ou presos em um baú pesado como o mundo

baú em que guardo velhas canções, alguns amores

vários fracassos, incontáveis erros e medos

muitos medos!

algumas vezes preciso abrir o baú

e de lá escapam assombros do meu passado

rememorando coisas que não quero lembrar

ou que preciso esquecer

retiro de lá algum sonho

que ainda valha a pena reviver

olho de frente para aquilo que me assombra

me machuca, me coloca em xeque

a tua paciência me dá forças e alguma coragem para mantê-lo aberto

e olhar para dentro desse baú com autoridade

você me dá segurança, um norte

contar-te tudo isto é ver-me sem espelhos

sem meia luz, sem metáforas, sem baús

só eu, você e meus amargos segredos

confesso

sou uma farsa! um paradoxo!

para cada um que se apresenta

ofereço o meu “eu” conveniente

sim... é isso... como diz o ditado:

a ocasião faz o ladrão

já estou a desconfiar que possa estar vivendo

o conto do sábio chinês:

estaria eu dormindo

sonhando estar de frente para um doutor

ou seria eu o próprio doutor

imaginando a mim mesmo

como um paciente no divã?

Jefferson Lima, Alba Santos e Marcela Torres
Enviado por Jefferson Lima em 23/03/2013
Alterado em 05/06/2026
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